Tenho muitas coisas a dizer sobre a vida e digo que não sei se me deva queixar ou simplesmente agradecer esse dom que me foi concebido. Sou uma adolescente, tenho muito pela frente, bonitas paisagens para apreciar, muitos concertos para ver, muitas pessoas para conhecer, longos e belos caminhos a percorrer. Ainda não compreendo bem os adultos, ainda não sei lidar com as pessoas, ainda não aprendi a conviver e a abrir-me pessoalmente a um outro alguém. Como disse, sou adolescente, não sei nada da vida é verdade, tenho uma óptima família, as minhas notas são razoáveis e graças a Deus não sou portadora de nenhuma doença ou deficiência. Por vezes eu faço coisas erradas, falo demais, digo coisas estúpidas, mas a minha assertividade sempre esteve presente em todas as minhas ações. Nunca fui má pessoa com ninguém sem justificação plausível e, mesmo com justificação tenho a certeza que de todas as vezes que o fui a consciência me pesou à noite como se fosse difícil de segurar. Gosto de ler, gosto de escrever, gosto de estar no facebook, gosto de não fazer nada, enfim... Gosto e penso em tudo o que as raparigas da minha idade gostam e pensam. Lembro-me que houve uma altura em que me queria diferenciar de todo o mundo, queria ter "aquela característica", não sei bem o porquê mas talvez isso também seja normal da idade. Também me lembro de ter ficado triste de saber que quanto às inclinações sensíveis, às paixões e desgostos amorosos sou um tanto igual a toda a gente. Houve um dia que julguei descobrir o amor, que julguei gostar das pessoas certas, de selecionar a lista de amigos correta como também lembro que todas essas escolhas foram mudando, alterando-se e pouco ou nada ficou do original de toda essa escolha e seletividade ao longo do tempo. Não sei se quero encarar a realidade, tenho noção que o deva fazer, mas a minha cabeça exige os contos de fadas, exige o amor eterno, a felicidade perpétua, acima de tudo a eternidade. Quando comecei a perceber um pouquinho do mundo real não quis crer que fosse assim, as coisas passavam-se como nos filmes, os maus saíram dos ecrãs rectangulares e vieram assombrar o nosso mundo, pensava eu, comecei a ver pessoas a trair pessoas, amores disfarçados, almas tristes, maridos a bater em mulheres, a segurança social a tirar filhos de pais, a crise, a pobreza, a miséria,os homossexuais a não serem aceites, o lodo da sociedade! É por isso que não me ouso queixar, porque não passo fome, porque tenho todos os membros, porque sou inteligente, porque sei que nunca verei ninguém a ser apedrejado devido a adultério, porque sei que nenhuma amiga minha sofreu uma mutilação genital em criança. Estou a ser egoísta? Sim estou. Recuso-me a encarar a realidade. Tenho um coração em mil pedaços, uma alma quebrada, um andar desajeitado de nascença, uma forma de ser que nem toda a gente compreende e que denomina de "santinha". Sei como se passam as coisas, todo o meu instinto é de mulher, sobretudo face à terra. É irónico saber, agora, que a melhor pessoa que eu conhecia é a pior do mundo, por várias razões que eu não vou enumerar, digo-o sarcasticamente para não me magoar muito mais, mas não deixo o meu estado nostálgico e de melancolia aparte. Eu penso que tudo tem uma razão, o mundo, todo ele tem uma razão de ser, quando estamos acordados estamos a sonhar e quando estamos a sonhar estamos acordados e, todas as injustiças do mundo se pagam em sonhos.

Sem comentários:

Enviar um comentário