Os cedros das igrejas


Dia 8.
Não sei mais onde ficaram os meus limites, limitada era eu, no sonhar, no pensamento, na amargura. Se sinto já não o sinto e se sinto parece que nunca senti mas quando sinto, será que sinto mesmo? Fala-me de ti, diz-me como estás. Tens passado bem? Tenho saudades tuas, imensas.
Por causa de todo este consumismo, aqui estou eu às portas da madrugada. Quando cai a noite ergue-se em mim a certeza de que será mais uma noite, sei-o pelos conflitos internos, rasgados ainda por um coração valente que não desiste da profissão, a esperança ainda o alimenta a cada minuto e cada minuto espera uma resposta calorosa, um arrependimento da tua parte, uma vaga e curta resposta que permaneça comigo a vida inteira,para desistir, para continuar, para morrer de amor. Dolorosa noite! Como conseguiste esquecer de mim deste jeito? Esqueceste mesmo? Não, nunca esquecerias. O baú...Diz-me o baú onde conseguiste largar todas as nossas recordações, diz-me que pelo menos as largaste para um dia as ires buscar ao sítio do costume, ao nosso canto do amor, ao nosso lagar. Como consegues ser tão frio em relação à tua paixão desde sempre? Um turbilhão de pensamentos corroem a minha alma, ainda quero acreditar que ames e que tudo isto não deixe de ser birra tua. Ó meu amor, como consegues ser assim para comigo? Eu que te amo loucamente, que deito e acordo a pensar em ti, que aguardo a toda a hora, a todo o minuto,a todo o segundo um sinal, uma folhinha rasgada, um vulto à janela ou mesmo um olhar indiscreto. Como eu tenho saudades daquela nossa troca de perfume barato, da fragrância conjunta, do misturar de odores flamejantes. Ao fim da noite lá estávamos nós, com cheiros trocados, com beijos e saliva trocada, com cabelos que não eram nossos, com diferenças distintas. Uma junção de tudo o que era o sentimento perpétuo. Dávamos por nós sentados num banco de jardim, enquanto a noite se punha, rosto a rosto, rindo não sei de quê e as pessoas passavam e a gente nem dava conta, éramos só nós, os outros pouco importavam, que importância tinham os outros? E ao comparar isto comparo o teu brilho nos olhos, o teu sorriso malandro, as tuas mãos ásperas e fortes... Tudo isso comparo a nada, porque nada parece que restou na imensidão desta escuridão. O sol deu lugar ás candeias que agora iluminam o meu caminho e o serão da noite vai acabar com o sono. Vem sono, vem. Vem dormir comigo esta noite. Será que te lembras meu amor? Das trocas de calor, de sabor, de amor, de pudor? Oh se lembras! Como não lembrarias? Como não lembrarias aquele cenário? As árvores e os seus ramos, nós lá deitados feitos loucos a olhar pró céu azul e branco, enquanto o sol rasgava os ramos, as folhas, o verde das árvores que nos envolviam num lindo berço de colo. Por isso lembra-te que não vai ser difícil lembrar do inevitável, porque em ti deixei um monte de coisas lindas para que te lembrasses do quão lindo foi e poderá ser este nosso árduo e ordinário amor.
Encerro o dia 8.

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