O velho que passa em frente à minha janela


Aqui estou eu novamente a implorar por ti, com o coração apertado, com aquela sensação sôfrega dentro de mim. Triste sina! O sol já se pôs faz tempo, nem um sinal, nem uma lobada de ar fresco à minha janela. Enquanto estudava a paisagem da minha varanda pensava em ti e sabes que passou novamente aquele velhinho que passa na estrada todos os dias à mesma hora? Eu não sei, tão solitário, tão fino, tão só, por vezes tenho vontade de conversar com ele sabes? Como naqueles filmes antigos em que a gente arranja um verdadeiro amigo que no fim acabava por morrer, num triste dia chuvoso. Se o tivesse perguntar-lhe-ia pela mulher, pelos seus filhos. Ouvi dizer que ele está no lar. Como é que alguém o pode fazer? Eu sou só mais uma sem coragem para lhe contar as minhas amarguras. Ele sim! Compreenderia o porquê do surgir de um primeiro amor e aconselhar-me-ia com toda a sua experiência perante a vida. Um sábio, sim, um sábio que em cada ruga esconde um ensinamento. É alto, diria mesmo que um magricela, calça de camurça, cabelo refugiado dentro de uma boina, casaco de pouca cerimónia, olhar cabisbaixo, sempre para baixo, sempre para baixo, como se a realidade fosse dolorosa demasiado para que pudesse olhar em frente, olhar ao seu redor. Com isto tudo esqueci-me de te falar de mim, do mim que não queres saber mais. Tenho medo que não voltes e se voltares tenho medo que voltes outra vez e eu vou andar por aí, sempre assim, sempre assim! Numa nostalgia total de adolescente insatisfeito. Abre-te comigo ou fecha-te de uma vez, mas dá-me um sinal porque eu sofro por ti.

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