
Quando vinha dos meus afazeres e chegava a casa, um longo caminho luminoso eu percorria. Agora, no meio da minha luz, que era só minha e só a mim me ofuscava durante o tempo que demorava a chegar ao destino, alguma cabeça tonta pensou em construir um edifício que me tapa o sol. Eu gostava do enorme buraco de lama que existia antes do edifício se erguer. Muitas vezes, durante os meus passeios nocturnos ouvia o som das rãs a chapinhar na água e elas passavam de um lado para o outro e mexiam-se como carros nas cidades. Agora não existe sol, não existe rãs nem outro tipo de beleza natural, isso tudo deu lugar a um enorme bloco de cimento rude que me tapa o sol. A verdade é que tenho frio durante aqueles minutos que vou pela sombra e a minha vida já não é a mesma desde então. Não tenho nada que me acalme ou que me faça abrir os olhos, apenas a escuridão parida pelos cantos das esquinas que me enegrece a alma. O que me custa é saber que nunca mais verei os raios de sol que perdi e com eles a harmonia que dava o equilíbrio e ao mesmo tempo o balançar na minha vida. Tapa-me o sol e eu não gosto. Por favor, parem de construir prédios que um dia estarão inabitados, parem de construir casas onde ocorrem as zangas familiares, onde o marido bate à mulher e as crianças berram pela chupeta, onde os vizinhos comentam a vida alheia,parem de construir edifícios públicos, preservem, conservem, cuidem mas parem com esta 'evolução' insignificativa, peçam um mundo melhor, um mundo mais claro, não construam, não destruam a Natureza, não a tapem, não lhe ponham um monte de cimento em cima porque o que vai restar dessa atitude é uma enorme sombra sobre as nossas cabeças. Uma enorme sombra que se perpetuará.
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