Alfacinha minha

Se eu pudesse escolher ser uma outra coisa escolheria ser uma alface, tenho dito, uma alface. Rica alfacinha! Não me perguntem o porquê mas digo-vos que ela é bem fresquinha, não é doce nem salgada, também não é amarga, acrescento que faz óptimas saladas, não, digo mais, eu gosto de salada. Mas não é essa a razão pela qual eu tenho esse desejo, o desejo de ser uma alface relembro-vos, vem sobretudo do cerne da palavra, enraizada na terra ela é frágil, ela é tenrinha, não se lhe pode agarrar de um jeito qualquer porque ela é dada a inclinações sensíveis, porque ela ama, ela sente, ela gosta da água e é-lhe fiel não só porque lhe dá vida e aquela cor sensacional, mas porque é essa a sua condição, então a alfacinha permaneceria para sempre na terra, na terra molhada, na terra seca, na terra batida, em qualquer tipo de terra meus amigos, até à sua morte, fiel e telúrica, como todo o bicho que não é bicho e todo o bicho que é bicho. Digo-vos mais queridos leitores, ela não gosta que a tirem da origem para voltar à origem, ela gosta de permanecer no mesmo lugar que, naturalmente é a origem e, sendo regada diariamente, sentindo-se amada pelo Criador que desconhece e dançando com a brisa ela será feliz. Sim, ela dança, vocês não vêem porque vocês meus caros, vocês não reparam nos pequenos, reparariam sim numa bela laranjeira, num belo limoeiro, numa bela cerejeira,num doce pessegueiro porque estes são bicho selvagem, bicho não carente, bicho do mato como meu pai me chamava quando fulano tal me cumprimentava com um beijo e eu limpava a bochecha à manga da camisola, mas lembrem-se, o que exige cuidado é a alface, apenas a alface, a alface que cresce nos vossos quintais, tratem dela. Boa noite.

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